Paciência

12 novembro de 2019

O segredo de Éder Militão em tempos de reserva na seleção e no Real Madrid.

Zagueiro de 21 anos revela um pouco da personalidade fora de campo

Éder Militão exercita a paciência que tem tatuada no pescoço e que diz muito sobre sua personalidade. No começo desta temporada, atuou em cinco de 19 partidas possíveis, entre Real Madrid e seleção. A frustração com a reserva, que seria natural, dá espaço à gratidão com o aprendizado. Afinal, é companheiro de grupo de Sergio Ramos e Thiago Silva, dois dos zagueiros mais dominantes nos últimos dez anos.

Ele é aguardado nesta segunda-feira em Abu Dhabi, onde os jogadores da seleção brasileira se apresentam para os dois últimos amistosos do ano, contra Argentina, dia 15, na Arábia Saudita, e Coreia do Sul, dia 19, em Abu Dhabi. Será a oportunidade de Tite oferecer mais tempo em campo para o zagueiro.

 

Afinal, diante do inevitável envelhecimento de Thiago Silva, de 35 anos, Militão desponta como o futuro do Brasil na Copa do Qatar, em 2022. Talvez formando dupla com Marquinhos. Mas o zagueiro de 21 anos não tem pressa. A fala mansa no áudio de Whatsapp corrobora com a palavra gravada na pele e na descrição de si mesmo:

— A tatuagem diz tudo, sou muito tranquilo. Dizem que sou muito devagar, quase parando, que só vou mesmo depois de um empurrão, de uma chamada de atenção. Não sei por que sou assim. Dentro de campo sou totalmente diferente.

Militão era lateral-direito, assim como o pai, Valdo, ex-jogador que viveu o auge ao passar pelo Corinthians em meados dos anos 1990. Quando conversou com ele, ainda nos tempos de São Paulo, foi aconselhado a não atuar no setor. Mas o garoto que precisa de um empurrão ficou firme em sua decisão, apesar de o instinto do pai não estar errado. É como zagueiro que Militão desponta como um dos talentos de sua geração.

Seus professores são dos melhores. Militão está quase que diariamente com Sergio Ramos, eleito melhor zagueiro do mundo dez vezes nos últimos 12 anos. Ele diz que o espanhol se preocupa em passar confiança para ele no Real. Seu convívio com Thiago Silva é mais esporádico, cresceu desde que foi convocado para a seleção pela primeira vez, depois da Copa do Mundo da Rússia, ano passado. Do jogador do Paris Saint-Germain, aprende o caminho das pedras da longevidade:

— Thiago é um cara excepcional, sem palavras. É um cara que trabalha sempre, que é um exemplo dentro e fora de campo. Ele faz os trabalhos antes e depois dos treinos, busca sempre o algo a mais, independentemente do que já tenha conquistado. Ele se doa muito.

É conhecida a história de que Éder Militão demorou até tomar gosto pelo futebol. Ou ao menos encarar o esporte como o caminho para sua vida. Por muito tempo, deu de ombros para o dom que saltava aos olhos nas peladas, que fez com que fosse aprovado em um teste no tricolor paulista. Não deixa de ser irônico pensar que esse mesmo garoto que desdenhava da bola tenha se tornado o zagueiro mais caro da história do Real Madrid — o time pagou cerca de R$ 230 milhões ao Porto, de Portugal, por ele.

Com a mesma indiferença, ele encara as cobranças geradas pela transferência milionária. Militão não tem pressa para comprovar que o valor investido valeu a pena. Paciência foi a chave para chegar onde chegou.

— Esse período no Real Madrid é de aprendizado, de evolução. Na seleção brasileira, ainda mais. Creio que para mim está sendo um dos momentos mais incríveis da minha vida — afirmou o jogador.

Fonte: https://oglobo.globo.com/esportes/paciencia-segredo-de-eder-militao-em-tempos-de-reserva-na-selecao-no-real-madrid-24073727